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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Farrapo vivo, parece morto; Xavante morto, parece vivo

Se o espaço destinado ao futebol em rádios, TVs, jornais e sites de Pelotas pudesse ser representado por um gráfico pizza, restaria ao Farroupilha no máximo a borda. E sem recheio!

Enquanto o tricolor do Fragata faz boa campanha na divisão de acesso do Gauchão, com grandes chances de chegar ao quadrangular final, o foco dos comentaristas locais está no Brasil. Seja pela peleia nos tribunais para disputar a Série C do Brasileirão, seja pela busca por uma vaga neste mesmo quadrangular que o Farrapo costeia.

Sei que muita gente pensa assim, mas não consigo concordar com o critério de que a maior atenção deve ser dada a quem possui maior torcida. Merece relevância aquele (ou aquilo) que faz por onde, que apresenta motivos para que se dê destaque.

Porém, em Pelotas é diferente. Enquanto o Brasil agoniza uma campanha ridícula na segunda divisão do Campeonato gaúcho diante daquilo que se esperava do time de maior torcida da cidade, maior apoio financeiro e de mídia espontânea, o Farroupilha caminha bem, com altos e baixos mas sempre colado nos primeiros da tabela em seu grupo. (Do Pelotas, nem falemos. Está hibernando depois de enrolar sua torcida e abrir mão de disputar uma competição nacional em 2012!)

No entanto, a "opinião" (ou seria torcida?!) repetida pela maioria dos especialistas locais até este final de semana dava conta de que o Xavante estava "vivo na divisão de acesso" depois de algumas vitórias consecutivas. Mesmo que para seguir adiante precise vencer todas e torcer por resultados paralelos. Impossível? Não, mas convenhamos que é bem difícil.

Por outro lado, bastou que o Fantasma deixasse a zona de classificação ao quadrangular final por uma única rodada para os mesmos especialistas avaliarem que a situação havia ficado "complicada, muito difícil" para o time. Tão complicada era a situação que a vitória do final de semana sobre o Santo Ângelo recolocou o clube entre os que estariam na fase final do acesso. Quão improvável, né?!

É mais ou menos assim que funciona a cobertura de esporte (futebol, que parece ser o único esporte conhecido na cidade) no rádio, na TV, nos jornais e nos sites de Pelotas. Como acontece em tantas outras áreas da sociedade local, o reconhecimento na maioria das vezes é dado a quem parece grande coisa. Mas, como todo mundo sabe, nem tudo que parece é.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Tá morto quem só peleia!

Marcação, garra e pegada ganham jogos, sim. Mas não ganham campeonatos!

Essa é uma lição que o Grêmio está demorando a (re)aprender. Prova disso é que se você parar para pensar no último jogador a vestir a camisa tricolor capaz de mudar o jogo à base da habilidade individual, vai custar um pouco a recordar. E, se achar, o sujeito estará escondido num canto escuro da memória, soterrado por dezenas de zagueiros botinudos, volantes durões e centroavantes trombadores.

Peguemos o último grande título gremista, a Copa do Brasil de 2001. Naquele grupo organizado pelo técnico Tite havia uma defesa comandada com a categoria e segurança de Mauro Galvão, um meio com a juventude e eficiência de Tinga somada à experiência e técnica de Zinho, em grande fase. No ataque, Marcelinho Paraíba no seu auge. Nenhum super craque, mas quatro jogadores acima do comum e, naquele momento de suas carreiras, decisivos.

De lá para cá, poucos elencos montados pelo Grêmio tiveram jogadores acima da média (ou do medíocre). E, quando havia um desses, era solitário no time. A exceção, talvez, seja o time vice-campeão da Libertadores de 2007, com Carlos Eduardo (foto) no ataque e Diego Souza no meio. E mesmo assim, apenas o atacante que surgia como revelação tinha relativa capacidade de quebrar uma defesa a partir de uma jogada individual.

É evidente que um time não pode abrir mão de contar com jogadores de pegada e obediência tática. Todos os grupos vencedores do Grêmio tiveram atletas com estas características. Mas não ganharam por causa deles. Ganharam com eles no time, o que é diferente.

Por mais que os carregadores de piano sejam importantes na maioria dos jogos, em algum momento é preciso alguém que surpreenda, capaz do drible e do passe diferenciado. Assim o Santos venceu a Libertadores. Com um time comum, mas com um jogador - Neymar - capaz de confundir qualquer tática adversária. Evidente que nem todo time pode ter alguém com a habilidade de Neymar, porém nem todo time pode chegar a conquistas amparado em um exército de jogadores ruins ou medianos.

Só põe faixa no peito quem faz a diferença na hora decisiva. Tá morto quem só peleia!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Jogou até o... fazer bico!



Já vi muitos jogadores darem sangue pelo seu time, mas não dessa forma, digamos, constrangedora.

Ontem, durante jogo válido pela 36ª rodada da segunda divisão argentina, o volante do River Plate Leonardo Ponzio passou boa parte do tempo desse jeito aí que a foto mostra, com o calção ensanguentado. E foram três trocas de calção - a pedido do árbitro - para tentar resolver o problema, sem sucesso.

Hoje, em entrevista à imprensa argentina, Ponzio explicou o motivo do sangramento: hemorróidas. Segundo ele, o stress da partida pode ter sido o motivo para que ele sentisse "algo quente" entre as pernas.

Profissional ao extremo, o volante foi elogiado pelo técnico Matias Almeyda por ficar em campo e ajudar o River a vencer o Boca Unido por 2 a 1 no Monumental de Nuñez, resultado que pode garantir o retorno do time à elite já na próxima rodada.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Caso Oscar: Na briga entre Inter e São Paulo, imprensa puxou brasa

Foi uma história que, se fosse ser detalhada, não teria como contar em uma daquelas “Histórias Curtas” que passam na TV. O embate envolvendo o meia Oscar, o São Paulo e o Internacional se estendeu por quase dois anos – ou exatos 714 dias – desde a apresentação do jogador em Porto Alegre.

Durante todo esse tempo, o clube paulista ameaçou o atleta, que bateu no Tricolor, que revidou no Colorado, que reagiu contra os paulistas, que exigiu grana dos gaúchos, que fincaram pé negando. E nesse ritmo a rusga se (des)enrolou durante todo esse tempo, rendendo ações e declarações desastradas de todos os lados, um prato cheio para os jornais e sites gaúchos e paulistas.

Agora, com o final da disputa por Oscar, tanto Inter quanto São Paulo tentam, via meios de comunicação, provar aos seus torcedores que saíram vencedores da batalha. Embora nenhuma das diretorias tenha conseguido exatamente aquilo que alardeou durante todos os 714 dias de imbróglio, uma coisa é inegável: se houve alguém que chegou mais próximo do objetivo, foi o São Paulo.

Sempre muito “respeitosa” com os dois grandes times do Estado, a imprensa gaúcha não pensa assim. Tanto que tem evitado falar sobre algo perceptível a quem analisa o histórico do confronto: o Internacional cantou de galo durante quase todo o tempo durante a confusão dizendo que não pagaria multa ao São Paulo para ter Oscar, mas no fim das contas precisou baixar a crista e bancar R$ 15 milhões para contar com o meia no seu elenco.

E que multa seria essa? Para quem não acompanhou o enredo desde os primeiros capítulos, um breve resumo. Nem tão breve, afinal a confusão foi longa.

Dono do próprio nariz
Em 18 dezembro de 2009, então com 18 anos, Oscar conquista liminar na Justiça o tornando dono dos próprios direitos federativos, após entrar com processo contra o São Paulo por ter sido supostamente induzido a emancipar-se e, aos 16 anos, assinar contrato profissional de três anos de duração com o clube, conduta considerada irregular pela Fifa. O jogador também alega atraso no pagamento de salários e FGTS desde setembro de 2008. Uma semana depois, portanto ainda em dezembro de 2009, a liminar é cassada e os direitos sobre o jogador são devolvidos ao São Paulo.

Meses depois, o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo decide a favor de Oscar, liberando-o do contrato que tinha com o clube do Morumbi. Assim, em 17 de Junho de 2010 o Internacional apresenta Oscar (foto) como seu novo atleta pelos próximos cinco anos. Ainda em adaptação, o meia é incorporado à equipe sub-23 para ser observado e ganhar experiência, até que passa a ser um dos destaques e se credencia a vaga no grupo principal em Novembro de 2010.

Com a nova joia sob holofotes, aumenta a preocupação da diretoria colorada com as ações do São Paulo para recuperar seu (ex?) jogador.

Preocupação que se torna ainda maior no início de Fevereiro de 2012. Amparado por nova decisão do TRT-SP, o São Paulo recupera os direitos sobre Oscar e encaminha ofício à CBF e Conmebol pedindo inscrição do jogador como atleta do clube, impedindo-o de atuar pelo Inter. O pedido é atendido no dia 21 de Março e o nome do meia aparece no Boletim Informativo Diário (BID) da CBF vinculado ao tricolor paulista, barrando a participação no time colorado que enfrentaria o The Strongest naquela noite pela Libertadores.

R$ 15 milhões ou o jogador de volta
23 de Março de 2012. Pela primeira vez até então, é veiculado o pedido do São Paulo de R$ 15 milhões para que o Internacional fique com os direitos federativos sobre Oscar. O valor, de acordo com advogados e dirigentes paulistas, seria referente à multa por rescisão contratual unilateral por parte do jogador. A diretoria gaúcha contesta e afirma que estaria disposta a pagar, no máximo, R$ 6,9 milhões, uma vez que já teria adquirido anteriormente 50% dos direitos econômicos do atleta – embora uma coisa não tenha a ver com a outra, já que direitos econômicos e federativos não possuem ligação.

Notando a situação cada vez mais complicada, no final de Março o Internacional pede ao TRT-SP para ser incluído no processo como “terceiro interessado” no caso. Até então o clube gaúcho vinha fora do imbróglio, com a disputa sendo travada, ao menos oficialmente, apenas entre Oscar e São Paulo.

Tem início, então, o confronto verbal entre os presidentes dos clubes, que “jogam para a torcida” através de declarações de efeito.

“Oscar tem carteira assinada com o Inter e contrato por mais quatro anos e meio. Ele é jogador do Internacional”, afirma Giovanni Luigi, garantindo que os cofres colorados não precisarão ser abertos para o meia continuar no elenco.









Do outro lado, Juvenal Juvêncio dispara que só libera a promessa de craque se forem depositados R$ 17 milhões na conta do São Paulo. Os R$ 2 milhões a mais com relação ao pedido anterior seriam devido à valorização de Oscar, que já teria sido sondado por equipes europeias.

Enquanto os cartolas se digladiam via imprensa, os advogados negociam. Representantes do Inter apresentam proposta de R$ 7 milhões, prontamente descartada pelos gabinetes do Morumbi.

Ameaças tricolores e reação de Oscar
Desconfortável com o ritmo das negociações, o jogador fala pela primeira vez sobre o assunto em entrevista ao SporTV em 16 de Abril. Há quase um mês apenas treinando no Beira Rio, o jogador acusa o ex-dirigente do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, de ameaça-lo quando da entrada na Justiça contra o clube. 

“Na época em que eu entrei na Justiça o Marco Aurélio disse que eu sofreria graves consequências. Disse que eu encerraria a minha carreira. Não é natural um dirigente ameaçar jogador”, disse Oscar.

Cunha (foto) se defende dizendo que “fez papel de educador”, prevendo o que poderia acontecer a Oscar a partir do processo.

Pouco mais de uma semana após a entrevista, o Tribunal Superior do Trabalho concede habeas corpus a Oscar, o que dá ao jogador o direito de escolher onde atuar. Em 7 de Maio, 47 dias depois de ser impedido de jogar, o meia volta a campo com o Inter contra o Caxias no primeiro jogo da final do Gauchão e chora após fazer o gol do empate por 1 a 1. Na mesma semana, a diretoria colorada admite ampliar a oferta ao São Paulo de R$ 7 milhões para R$ 10 milhões. Os paulistas novamente rechaçam.

Convocação e fim de novela
Convocado pelo técnico Mano Menezes para integrar o grupo da seleção brasileira que disputaria quatro amistosos na Europa e Estados Unidos entre o final de Maio e o começo de Junho, Oscar se valoriza e representantes colorados mais uma vez ampliam oferta ao São Paulo. Pouco depois de entrar em campo como titular da camisa 10 da seleção contra a Dinamarca, o meia é adquirido pelo Inter por R$ 15 milhões, valor estipulado desde o começo das negociações para a rescisão do contrato.

Tanto em São Paulo quanto em Porto Alegre as manchetes exaltam o fim da batalha entre os clubes. Porém, sob diferentes óticas. No Sudeste o destaque é o valor embolsado pelo tricolor do Morumbi. A Folha Online diz que “o São Paulo negociou o meia Oscar com o Internacional por R$ 15 milhões, na maior transação interna de um jogador no Brasil”. Já no Sul o foco é para o acordo de pagamento parcelado, com divisão entre o clube gaúcho e o empresário do jogador.





“Pelo lado colorado, além da presença do presidente Giovanni Luigi e de Fernandão nas negociações, o processo foi liderado pelos advogados Daniel Cravo e Rogério Pastl”, diz o texto publicado na página online de esportes de Zero Hora, destacando os dirigentes e advogados.






Em ambos os casos, seja em São Paulo ou em Porto Alegre, embora sejam assinadas por repórteres dos dois jornais, as notícias parecem releases de assessoria. Cada uma puxa para um lado.

Se Oscar custou caro – a maior transação entre dois clubes brasileiros – ou barato – poderá valer o dobro em alguns meses – é uma questão de ponto de vista (e de paixão clubística, para alguns). Porém, não se justifica que as notícias deixem na penumbra algumas informações de acordo com a região de origem de cada veículo. Em São Paulo o leitor é induzido a considerar o time paulista como “vencedor”, recebendo aquilo que pedia pelo seu atleta para quebrar o contrato. A confusão sobre a intransigência do clube quanto aos direitos trabalhistas fica em segundo plano. Já no Rio Grande do Sul o clima parece ser de “triunfo” por tirar um atleta do Morumbi mesmo contra a vontade do São Paulo.

Ou seja, nesse embate entre Internacional e São Paulo, ao invés de simplesmente contar a história, sem proteção de interesses clubísticos, boa parte da imprensa que cobriu o caso resolveu participar do enredo como coadjuvante. Tal qual um daqueles personagens de filmes e novelas que ficam estimulando a rivalidade entre os protagonistas, os veículos alimentaram uma animosidade desnecessária entre torcedores passionais, que despejaram declarações de ódio ao time rival na disputa por Oscar.

E no final, o óbvio: o jogador vai trabalhar onde quer e seu antigo empregador receberá o que lhe cabe como direito. Seria simples, se não complicassem.